21
jul
09

O clube do bangue bangue

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Kevin Carter no meio da confusão (foto: Ken Oosterbroek / The Star)

Por sugestão do meu colega Rodrigo Leal, profissional que registra a rotina diária dos portos do Paraná, estou lendo (ainda que tardiamente) o livro “Clube do Bangue Bangue”, escrito pelos fotojornalistas Greg Marinovich e João Silva. Ao lado dos lendários Kevin Carter e Ken Oosterbroek, os dois cobriram os conflitos violentíssimos que explodiram na África do Sul, logo após a libertação de Nelson Mandela. A briga entre a etnia Zulu, com apoio do governo, e os seguidores de Mandela, estendeu-se do início dos anos 90 até meados de 1994, ano em que ele se tornou presidente.

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Lindsaye Tshablala em chamas (foto: Greg Marinovich)

Durante aquele que é considerado o período mais violento da história da África do Sul, os quatro profissionais se meteram no meio da guerra civil munidos apenas de Leicas, Nikons, rolos de filme, coragem e muita sorte – se é que podemos afirmar isso. E aquilo que eles testemunharam de perto nos albergues, ruas e guetos da periferia de Johanesburgo, deixou marcas profundas não apenas no fotojornalismo como nós conhecemos, mas no corpo, na mente e na alma de cada um deles. Estava criado o mito que habitaria, a partir dali, o imaginário de grande parte dos fotojornalistas do mundo inteiro: o Clube do Bangue Bangue.

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Um homem ri, enquanto mulheres espancam outra caída no chão(foto: João Silva)

Dois destes homens - Kevin e Greg – foram ganhadores do prêmio Pulitzer de 1994, pela ousada cobertura dos combates. Kevin e Ken, porém, pagariam um alto preço pelos dias vividos como retratistas do inferno: Ken Oosterbroek morreu durante um tiroteio na favela de Thokoza, a cerca de 25 quilômetros de Johanesburgo, alvejado pelo tal “fogo amigo”; Três meses depois, atormentado pelas lembranças da dor e agonia que se habituou a registrar, endividado e afundado em drogas, Kevin Carter se suicidou, aspirando a fumaça do escapamento de sua picape.

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“The Vulture”, foto de Kevin Carter

Como últimas palavras, em um bilhete encontrado ao seu lado, Carter escreveu: “estou deprimido… sem telefone… dinheiro para o aluguel… dinheiro para ajudar as crianças… dinheiro para as dívidas… dinheiro!!! Sou assombrado pela memória viva das execuções e cadáveres e angústia e dor… das crianças famintas ou feridas, dos loucos armados, muitas vezes policiais, dos executores e assassinos… Eu vou encontrar Ken, se tiver sorte.”

O “Clube do Bangue Bangue” é leitura obrigatória para qualquer profissional da imagem e de imprensa. E para todos aqueles que acham que fotografia é a coisa mais glamurosa do mundo.

  • Saiba mais:

- The Death of Kevin Carter: Casualty of the Bang Bang Club

- Clube do bangue bangue vai virar filme

- Clipe da música “Kevin Carter”, dos Manic Street Preachers

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